27/07/2010

Pessimistas Notáveis – Mr. Alan Moore, The Extraordinary Gentleman

Posted in Nem Tudo Está Perdido tagged , , , , , , , , , , às 16:26 por Roger Lopes

Excêntrico em sua genialidade arcana, Alan Moore coleciona os mais variados adjetivos em torno de sua peculiar e sombria figura. Responsável por alçar exponencialmente um segmento tão discriminado quanto as Histórias em Quadrinhos ao status de nona arte, o escritor britânico desfruta, no entanto, do estereótipo de pessimista birrento irredutível ao extremo. Não lhe cabe, todavia, o rótulo de reles rebelde sem causa. Politizado e culto, Moore denota autêntica ojeriza ao establishment e abdica de qualquer apego monetário em respeito às suas criações e fiéis leitores, mandando às favas as sedutoras promessas materiais do paraíso capitalista por um punhado de sua alma. Implacável contra o despotismo, despreza todo tipo de autoridade e poder constituído.

Autor de cultuadas obras, a maioria de indiscutível valor literário como “Watchmen”, “V de Vingança”, “Do Inferno”, “Monstro do Pântano”, “A Piada Mortal” e “A Liga dos Cavalheiros Extraordinários”, o senhor do caos não faz qualquer esforço para esconder sua antipatia pela massificação cultural. Apesar de ativista dos direitos autorais, recusa inadvertidamente ter o nome creditado nas quase sempre hediondas versões cinematográficas inspiradas em seus trabalhos e destila todo veneno possível no melhor estilo não vi e não gostei. That’s it, my friend, não é preciso comer merda pra saber que a coisa é pouco palatável.

Nada afeito ao mainstream, o barbudo dos pântanos esconde-se dos holofotes na cidadezinha de Northampton, onde cresceu em meio a privações e dificuldades financeiras, mas que se recusa terminantemente a abandonar, sendo personagem constante nos tradicionais pubs, apesar da fama de recluso e mal-humorado. Suas inúmeras referências incluem notáveis da estirpe de Crowley, Nietzsche, Orwell, Lovecraft, Blake, Stevenson, Koestler, Poe, Dante, Goethe e Huxley, que não simbolizam necessariamente o pensamento feliz e positivo dos disseminadores de correntes amigas na internet. Ao contrário, são realistas arautos da desesperança e da crítica impiedosa.

Apegado a coerentes e distintos valores filosóficos, morais e místicos, mandou recentemente a poderosa DC Comics enfiar uma proposta sem precedentes, literalmente no anal da história da grande editora. Assim como Rorschach, seu mais carismático personagem, o homem é inflexível. Não faz concessões. É preto no branco. Sem meio tom, sem cinza. Afinal, o cara tem uma péssima e amedrontadora imagem a preservar.

Sugestões em Gotas

Esqueçam as nefastas adaptações cinematográficas. São todas lixo oportunista da pior qualidade. Fique com os originais.

O Monstro do Pântano (The Swamp Thing, 1984)

Criado por Len Wein e Berni Wrightson na década de 70, o “Monstro do Pântano” encontrava-se prestes a ser cancelado quando caiu nas criativas mãos de Alan Moore. Modernizando o conceito de quadrinhos de horror e inserindo complexas temáticas sociais, sexuais e ecológicas, o sombrio cavalheiro alçaria o obscuro personagem à condição de sucesso de crítica e público. O estilo lovecraftiano adotado é grata homenagem ao maior escritor de contos de terror e suspense de todos os tempos. Destaque para os arcos de histórias “Lição de Anatomia”, onde inicia-se a nova concepção elemental do herói e “American Gothic”, que viria a parir o misterioso e cínico John Constantine e jogá-lo na já conturbada vida do pantanoso.

V de Vingança (V for Vendetta, 1982/1988)

Ambientada num distópico futuro orwelliano de 1997, essa obra publicada na década de 80, se desenvolve em clima quase operístico em torno da figura enigmática e teatral de V, um frio e calculista libertário, com máscara e traje inspirados no notório anarquista Guy Fawkes, que tencionava assassinar o rei protestante Jaime I e mandar pelos ares os membros do parlamento britânico,  no evento que ficou conhecido como “Conspiração da Pólvora”, sendo capturado e enforcado por traição no dia 5 de Novembro de 1605, data celebrada hoje  como “Noite das Fogueiras”. Permeada das mais variadas referências artísticas, culturais, políticas, históricas, literárias, musicais e até religiosas, V de Vingança é um libelo contra a opressão promovida por sistemas de governo despóticos e totalitários, com evidentes alusões ao regime conservador imposto pela era Thatcher na Inglaterra.

Watchmen (Watchmen, 1985)

Considerada pela crítica especializada como a criação máxima dos Quadrinhos, Watchmen não apenas revolucionou todas as técnicas narrativas e estéticas do gênero como sacramentou definitivamente a desconstrução de todo o conceito existente sobre super-heróis. Acumulando os principais prêmios voltados ao segmento, como o Eisner Awards e o Prêmio Kirby, é a única HQ a conquistar o Hugo Award, voltado exclusivamente para obras de literatura e a constar na lista dos 100 melhores romances do século XX da Revista Time. Qualquer análise, por mais ampla, configura-se superficial e redundante perante a ousadia da questão definitiva: “Who Watches the Watchmen?”

A Piada Mortal (The Killing Joke, 1988)

Concebida para ser uma simples história dentro da cronologia do Batman pós-Crise nas Infinitas Terras, sob a regência de Moore resultou num verdadeiro show de insanidades e teorias psicanalíticas junguianas promovida por um perturbado Coringa e uma das mais ilustres graphic novels já produzida, influenciando diretamente o personagem interpretado por Heath Ledger na única adaptação razoável do Homem-Morcego para a película.     

Do Inferno (From Hell, 1991)

A história de Jack, The Ripper pelo olhar quântico do senhor do caos só poderia redundar na superação do genial escritor. Fomentada em dez anos de exaustiva pesquisa, “From Hell” liga elementos conspiratórios e rituais ocultistas da era Vitoriana ao mais ilustre serial killer de todos os tempos. Revisitando os famosos crimes de Whitechapel, Moore transcende não apenas os mitos e especulações  acerca do assassinato das miseráveis vítimas, como viaja pela física arquitetônica, simbolismos maçônicos e contexto político darwinista, cuja preservação das aparências da espécie dominante se sustenta pela eliminação sistemática dos dominados. 

A Liga dos Cavalheiros Extraordinários (The League of Extraordinary Gentlemen, 1999)

Referências, referências, citações, ação e mais referências com personagens clássicos da literatura britânica combatendo o mal (ou não, dependendo do ponto de vista). Pequena demonstração da versatilidade do cavalheiro.

A Voz do Fogo (Voice of the Fire, 1995)

Você que irá adentrar essa obra profana abandone todas as esperanças. O senhor Alan Moore definitivamente não faz concessão aos tradicionais “era uma vez” e “viveram felizes para sempre”. Tampouco subestima a capacidade de seu séquito com guloseimas de fácil degustação. Não, assim como nos trabalhos anteriores que o consagraram, em “A Voz do Fogo”  os convencionalismos também são dispensados, desafiando o leitor a capinar as inúmeras referências escondidas sob o soalho de datas, nomes, fatos, locais e acontecimentos históricos. Em doze assombrosos contos intercalados que convergem em uma única voz fomentada por cumplicidades, traições, assassínios, torturas, perversões sexuais, pesadelos, vinganças, fantasmas, escatologias, humor negro e toda sorte de augúrios, às vezes surreal e sempre corrosivamente macabro, enveredando pelo lado arcano das mitologias, cultos e rituais pagãos, misticismo, religião e influências góticas, sem prescindir dos contextos políticos e históricos característicos. Imprevisível como só a mal humorada genialidade britânica do tétrico barbudo pode conceber, mantém o nível complexo dos principais escritos do autor, sendo pouco atraente ao gosto dos menos iniciados e desaconselhável para simplórios e afins.

A Paisagem Mental de Alan Moore (The Mindscape of Alan Moore)

Excelente documentário sobre a vida, obra e idéias do sinistro mago dos quadrinhos, narrado por ninguém menos que o próprio.

Inebriante. Tome um Engov antes e dois depois. 

Persistindo os sintomas um xamã deverá ser consultado.

 

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