28/09/2010

Desrespeitável Público

Posted in Assim Caminha a Bovinidade, Detestável Mundo Novo, Neopessimista, Político Bom é Político Morto tagged , às 15:24 por Roger Lopes

Desrespeitável público, o circo está de volta à Terra da Bandalheira. Tem bandeirinha, corneta, pipoca e picadeiro. Tem alegria, muita diversão e, claro, palhaços a dar com o pau. Dos dois lados do palco. E cidadão que sou, mais uma vez fui convocado para ser voluntário no maior espetáculo da terra, o processo eletivo brasileiro, pilar da democracia. Pois sim, joguem areia em meus olhos.

E como não poderia deixar de ser, a trupe de picaretas querendo se fartar a custa de cargos públicos cada vez aumenta mais. Apresentadores de rádio e televisão, jogadores e dirigentes de futebol, boxeadores decadentes, promotores que usam casos sensacionalistas para se promover e até atores e atrizes pornôs ganham o horário eleitoral “gratuito”. Não sei se é pra rir ou chorar.

Já que não pretendo contribuir para essa picardia votando em filho da puta nenhum, procurei ficar incólume dessa ridícula corrida eleitoreira. Entretanto, por mais que quisesse, não consegui fugir do assunto do momento, a campanha irreverente do palhaço Tiririca a Deputado Federal e a caça às bruxas que se forma no horizonte.

Longe de querer ser advogado da malandragem disfarçada de sorriso, mas é evidente que por um breve instante a piada sem graça tirou a sociedade de sua contumaz letargia. As questões levantadas com pilhérias do tipo “Você sabe o que faz um deputado? Nem eu”, de forma inesperada isqueirou a fagulha do questionamento no povinho abestado e arranhou a imagem engravatada de todos os pilantras que enveredam pelo caminho do fomento à miséria denominado política.

Prova disso é o ofício expedido pela Procuradoria Regional Eleitoral de São Paulo à Justiça Eleitoral, visando tirar o menestrel Tiririca de cena, em razão de uma possível ocultação proposital de bens pessoais à Justiça, enquanto outras correntes propõem banir o comediante enquadrando sua campanha por infração ao artigo 5º da resolução 23.191 do TSE, que diz: “A propaganda, qualquer que seja a sua forma ou modalidade, mencionará sempre a legenda partidária e só poderá ser feita em língua nacional, não devendo empregar meios publicitários destinados a criar, artificialmente, na opinião pública, estados mentais, emocionais ou passionais (Código Eleitoral, art. 242, caput)”.

Entretanto, impugnar a candidatura do palhaço com base nessas considerações seria um verdadeiro tiro no pé da panfletagem eleitoreira oficial e do pseudo processo democrático, suprimindo o direito à liberdade de expressão, pois todo brasileiro sabe que seus representantes políticos são arlequins corruptos trajando ternos Armani. Tiririca apenas se veste adequadamente para o circo que é a política nacional, mas o modelo propagandístico orwelliano não permite macular a imagem do Grande Irmão Eleitoral. Como diria o velho ditado, só dói quando ele ri.

Partindo do princípio De Gaulle de que a Joan Mother’s Home não é definitivamente um país sério, é óbvio que a mediocridade cultural do povinho fútil, retardado, fraco, promíscuo e corrupto, não apenas elegerá o bufão como seu representante, mas propiciará a ele uma das mais representativas soma de votos de todos os tempos. Quem duvida põe o dedo aqui, bem no fogo da hipocrisia brasuca.

Dedadas no rabo a parte, o governo gastou uma fábula para convencer o populacho da seriedade deste processo de escolha sem credibilidade alguma e de repente se viu surpreendido com um tabefe na fuça, dado pelas verdades ditas pelo candidato polichinelo, pois este não é pior do que nenhum dos safados que se perpetuam ad infinitum no poder à base do tradicional pão e circo. Afinal, como ele próprio afirma, “pior do que tá, não fica”.

Anúncios

%d blogueiros gostam disto: