28/04/2011

Gibi é Coisa de Criança

Posted in Nem Tudo Está Perdido, O Melhor dos Mundos Possíveis tagged , , , , , , , às 00:38 por Roger Lopes

Gibi é coisa de criança. E se não é, deveria ser. Não pelo estigma imposto durante eras por pseudos-intelectualóides vaidosos empunhando catedráticos tomos técnicos ou gente limitada cujo maior esforço cognitivo se resume a digerir as notícias mastigadas de telejornais e tablóides tendenciosos, mas por ser um importante elemento propulsor de formação cultural. Que se pergunte hoje a pedagogos não mumificados por arcaicas teorias medievais, se não dariam um braço para ver a molecada idiotizada pelos big bostas, novelinhas fisiculturistas e outras bobagens do naipe, lendo uma boa história em quadrinhos.

Excelsior! Tratados em tempos remotos com evidente antipatia por educadores e afins, os quadrinhos conquistaram desde o final do século passado, espaço e respeito entre as classes eruditas, recebendo o status de nona arte e o devido reconhecimento literário por segmentos de reputação destacada como a revista Time, teses de escritores da estirpe de Umberto Eco e Álvaro de Moya e angariando importantes prêmios como o Hugo e o World Fantasy Award.

Paradoxalmente é justo entre as camadas detentoras de intelecto nível Groo e menos providas de senso crítico, acusadas de representar o público alvo desse segmento, que sua inserção encontra maior resistência.

No dia mais claro ou na noite mais densa é comum diferenciar dentro das principais formas de expressão como pintura, teatro, cinema, literatura, arquitetura e música as criações que reconhecidamente são tratadas como arte e as que são mero produto de entretenimento, porém raramente se escuta quaisquer depreciações generalizadas acerca do gênero em si, como ocorre diuturnamente em relação às HQs

É perfeitamente plausível a justificativa de falta de afinidade com a forma híbrida da arte sequencial, com seus balões e onomatopéias, mas é inegável que expressões debochadas do tipo “aff, gibis não dá!”, dita com a empáfia inerente de quem se julga muito culto, denota na verdade ignorância inconteste.

Shazam! Que caia um raio na cabeça desses patifes reprodutores de idéias hermeticamente pré-concebidas, cuja insensatez ainda encontra eco amplificado quase 60 anos depois do vil período em que o psiquiatra disfarçado de cientista louco, Fredric Whertan, por meio de sua obra “A Sedução dos Inocentes”, gerou ferrenha perseguição quase exterminando gênero tão prolífico, ridiculamente acusado de promover a deformação moral da juventude ianque pela perversa Caça às Bruxas Macartista.

Ainda assim, apesar dos exageros, ao menos este Hugo-A-Go-Go da Era Truman enxergava os comics com a seriedade devida, mais do que se pode esperar de acéfalos pretensiosos, que torcem o nariz sem qualquer conhecimento de causa. Apenas reavivando a memória dos mais amnésicos, as repudiadas bandas desenhadas haviam sido usadas anos antes, no auge da Segunda Guerra Mundial, com bastante propriedade, como propaganda ideológica antinazista, afinal quem sabe o mal que se esconde no coração dos homens, não é mesmo?

Pelos Demônios da Estígia, mas o que tem a ver essa reza por Mitra com a missa em nome de Crom? Para os incautos arquiinimigos (sem hífen, nova ortografia my eggs) do segmento, picas, afinal contextualização não é parte do processo simplório de apedrejamento, porém para aqueles que desenvolveram parte da formação para o alto e avante devido a esse segmento “menor”, tudo.

Que Norrin Radd e Shalla Bal me perdoem, mas este não é um assunto que a paixão permita abordar de forma sucinta, já que essas desajuizadas crianças crescidas trabalham, estudam, discutem e desenvolvem teses universitárias, escrevem colunas em blogs, jornais e revistas, elaboram roteiros para cinema e séries de tevê e, não obstante, ainda perdem considerável tempo e dinheiro para encontrar nos subestimados gibis, autores bobos como Maurício de Souza, Ziraldo, Walt Disney, Charles Schulz, Bill Watterson, Jim Davis, Quino, Laerte, Angeli, Glauco, Robert Crumb, Will Eisner, Guido Crepax, Milo Manara, Alan Moore, Neil Gaiman, Frank Miller, Goscinny e Uderzo, cheios de idiotas referências literárias, políticas, históricas, artísticas, mitológicas, filosóficas, musicais, cinematográficas e até sociais em detrimento dos instrutivos noticiários vídeoclípicos, irretocáveis diálogos telenovelísticos e sofisticadíssimos miserality shows. Por Tutatis! São mesmo loucos esses romanos.

No Brasil o termo gibi adquiriu conotação tão pejorativa, que hoje até os mais apaixonados o renega, fazendo questão de esclarecer que “Gibi” era uma publicação tupiniquim lançada no final da década de 30, tornada sinônimo de revistas em quadrinhos por causa da notoriedade alcançada na época. Acerca de tal demérito nem Odin ousas tentar compreender o porquê.

Deixando as elucidações semânticas de lado, retornemos à afirmativa do preâmbulo. Decerto quadrinhos é coisa de criança e se todas no país os lessem, certamente não ostentaríamos a vexatória marca de um dos maiores índices de analfabetismo pleno e funcional do mundo, pois com grandes poderes vem grandes responsabilidades. Todavia, chega de sonolentas considerações pedagógicas, pois já merece um anel energético quem conseguiu chegar até aqui sem passear pelo reino onírico de Morpheus. “Aff, gibis realmente não dá!”.

Publicado originalmente em Quadrinhos e Blá Blá Blá (Agosto/2010)

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